PRIMEIROS PASSOS DA CENTRAL SINDICAL E POPULAR FUNDADA NO CONCLAT
Após a histórica realização do Congresso da Classe Trabalhadora, infelizmente marcada também pela derrota da ruptura dos setores minoritários que não aceitaram as votações de plenário, a central fundada neste congresso dá seus primeiros passos.
Apesar das poucas semanas de sua fundação, já vemos a central sindical e popular fundada no Conclat realizar as suas primeiras atividades. Sejam nas greves, como a dos trabalhadores da USP, dos servidores do judiciário federal, dos servidores do judiciário estadual de SP ou a dos rodoviários de Fortaleza, seja na ocupação do Rodoanel (em SP) realizada pelo MTST ou pelas mobilizações do MTL na região do Triângulo Mineiro, as bandeiras das organizações que fundaram a entidade demonstram o caminho que será adotado na construção da nova organização: a forte presença nas mobilizações dos trabalhadores e do conjunto dos explorados e oprimidos.
Já na semana seguinte ao congresso, vimos também a Secretaria Executiva Nacional (SEN) provisória dando prosseguimento a campanha de exigência ao Presidente Lula que não vetasse o projeto do reajuste dos aposentados e que acabava com fator previdenciário, iniciada pela Conlutas e a Cobap. Agora, a central vai denunciar com veemência a traição do veto do presidente ao fim do famigerado fator que reduz o valor das aposentadorias e aumenta o tempo de serviço.
No dia 15 de junho, aconteceu a primeira reunião da SEN provisória, onde foi oficializado o início da construção da central fundada no Conclat, tendo como as principais decisões a montagem das equipes de trabalho para responder ao dia a dia das atividades da entidade, a definição da nota oficial sobre os acontecimentos lamentáveis na ruptura do Congresso e a convocação da primeira reunião da Coordenação Nacional de entidades e movimentos.
Na pauta da coordenação estará obrigatoriamente a eleição da SEN ordinária, pois a atual tem seu mandato provisório até a realização da primeira reunião da Coordenação. Além, da definição sobre o nome votado no congresso, pois a Intersindical, um dos setores que infelizmente rompeu o congresso, não participa até então da entidade e, caso se consume a divisão, não terá mais sentido usar este nome. O plenário do congresso autorizou a Coordenação Nacional, diante da ruptura, realizar mudanças no nome da entidade.
A Coordenação Nacional acontecerá entre os dias 23 a 25 de julho, no Rio de Janeiro. Esta importante reunião terá a missão de normalizar definitivamente o funcionamento da entidade. Portanto, é esperada uma grande presença das entidades de base e movimentos que compõem a central sindical e popular fundada no Conclat.
SETORES RUPTURISTAS NÃO RESPEITAM AS RESOLUÇÕES DO CONGRESSO
O bloco Intersindical-Unidos-Mas, que tiveram cerca de um terço dos delegados, e romperam com o Congresso por não aceitarem a legitimidade das votações mais importantes do plenário, publicaram uma nota pública conjunta (além de notas específicas de cada organização), convocando uma reunião para o final do mês. Uma leitura mais atenta destas notas, demonstra que a razão desta ruptura não é simplesmente a questão da definição do nome da entidade.
Estes setores questionam votações do Congresso, especialmente a que definiu o caráter sindical e popular da entidade com a participação deliberativa do movimento estudantil e dos movimentos de luta contra as opressões. O argumento absurdo que a presença destes setores acaba com o caráter classista da entidade que fundamos no congresso, foi mantido na maioria das notas.
Outra diferença fundamental é na concepção de funcionamento da entidade. Os setores rupturistas querem impor um funcionamento por consenso entre as correntes políticas mais fortes que compõe a entidade. Esta proposta revela de forma cristalina que estes setores ainda não tem acordo com a construção de uma entidade nacional de frente única, que funcione com uma concepção onde o voto dos representantes das entidades de base e dos trabalhadores esteja sempre acima dos acordos entre as correntes políticas.
Em nossa opinião, a militância dos partidos e organizações políticas da classe trabalhadora são bem vinda na organização que estamos construindo, mas suas decisões políticas devem ser tomadas, de forma soberana e autônoma, nos seus fóruns e instâncias formados pelos representantes das entidades de base e movimentos.
E, por último, mais não menos importante, os setores que romperam com o congresso exigem um nome que não tenha o termo Conlutas. Demonstrando que seu verdadeiro objetivo não é se unificar com a Conlutas, mas sim apagar seu nome da história do movimento operário brasileiro. O processo de unificação atual já deu demonstrações evidentes de suas limitações políticas e é mais que legítimo que as organizações envolvidas neste processo queiram manter na nova entidade o acúmulo construído anteriormente.
MAIS UMA VEZ, UM CHAMADO A UNIDADE
Mesmo com os argumentos absurdos presentes nas notas públicas dos setores que não respeitaram as decisões legítimas do congresso, a SEN provisória eleita no Conclat apresentará uma proposta a estes setores, que busca novamente retomar o caminho da unidade.
Na proposta estará presente, em primeiro lugar, o respeito às deliberações tomadas pelo congresso e a manutenção do funcionamento de uma verdadeira entidade de frente única, e não baseada nos acordos permanentes entre as correntes políticas. Caso exista acordo nestas duas questões básicas, será apresentada a disposição de propor a Coordenação Nacional de julho a inversão na ordem de apresentação do nome votado no Conclat.
Esperamos que estes setores revejam a sua posição de romper com as votações legítimas do congresso, e retomem o caminho da unidade.
Com Lutas Saudações!
Heitor Fernandes, Dirigente da FENTECT pela Oposição Nacional Conlutas.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
sábado, 19 de junho de 2010
FRASE DO DIA
"Ser livre não é fazer não importa o que, mas é superar o dado na direção de um futuro aberto..." (Simone de Beauvoir)
sexta-feira, 18 de junho de 2010
terça-feira, 8 de junho de 2010
NOSSO BALANÇO DO CONGRESSO REALIZADO EM SANTOS
(de 3 a 6 de junho de 2010)
Lembramos que a secretaria de comunicação é responsável mais direta pela divulgação e mediação das informações. Se você acessar o blog da secretaria (em nossa lista de links) vai encontrar bastante informação, inclusive com fotos. De nossa parte, nos limitaremos a fazer observações mais gerais...
O Encontro de Mulheres
Ficamos felizes por participar e levar o nosso apoio ao Encontro de Mulheres que aconteceu no dia 03. Quase todos da Secretaria LGBTT estiveram presentes (Cláudio, Rute, Romeu, Cleusa e Luciano). No entanto, nossa participação foi discreta e não conseguimos participar da plenária LGBT, pois ela aconteceu em um local distante de onde estava sendo realizado o encontro e houve um problema de logística que dificultou o nosso deslocamento até lá. Decidimos permanecer no encontro de mulheres até o final, afinal nossa causa está intimamente ligada à causa das mulheres, pois tem a ver com gênero, com discriminação, machismo e opressão. Confiamos firmemente que nossas amigas militantes, assim como nós, tenham a firme convicção disso. UM VIVA A TODAS AS MULHERES LUTADORAS!!!!
O Congresso da CONLUTAS
Após o encontro de mulheres, nos dirigimos para o centro de convenções onde aconteceria o Congresso da CONLUTAS e o CONCLAT (Congresso da Classe Trabalhadora). Parte dos membros da secretaria retornou para São Paulo, mas fiquei como delegados pela APEOESP/Subsede Sul. Houve um problema com o sistema informatizado e a fila para o credenciamento cresceu demais da conta...
O Congresso apenas ratificou a tese elaborada a partir da base, que, dentre outros aspectos importantes, concebia na nova central a participação efetiva dos movimentos populares e, entre eles, o de luta contra a homofobia.
SALVE IRMÃOS DA CONLUTAS!!! BENDITOS SEJAM...
O Congresso da Classe Trabalhadora (CONCLAT)
No CONCLAT as coisas foram mais difíceis. Havia mais de uma corrente contrária à participação efetiva dos movimentos populares e estudantis na nova central que estava sendo criada. Apesar disso, a maioria evidente dos delegados aprovou a nossa “tese”.
Próximos ao final do Congresso, houve a desistência da Intersindical/Unidos/MAS que abandonaram a plenária. Apesar disso, o nosso balanço é positivo, pois:
_ Uma nova central foi criada;
_ Nossa tese foi aprovada (nossa causa não será uma mera citação ou um adereço de uma causa maior, ela estará imbricada intimamente nos trabalhos da nova central)
_ Nossa tese foi aprovada (nossa causa não será uma mera citação ou um adereço de uma causa maior, ela estará imbricada intimamente nos trabalhos da nova central)
_ Conhecemos muitos dos nossos apoiadores e de nossos opositores;
_ Fizemos excelentes contatos para futuras parcerias;
_ Um membro de nossa secretaria esteve presente em um evento que fez e fará história na luta pelo fim da opressão e da exploração;
Enfim, fizemos o nosso papel da melhor forma que pudemos!!!!
GRANDE ABRAÇO A TODAS E TODOS!!!!!
terça-feira, 1 de junho de 2010
RECOMENDAÇÃO
Caros e Caras,
Sei que o artigo abaixo é um pouco longo, mas recomendo enfaticamente que o leiam, pois é uma bela e consistente reflexão sobre a questão da homofobia, numa dimensão abrangente, sem contudo perder os vínculos socio-políticos, históricos e religiosos. Leiam tudo ou pulem um pedaço, mas leiam, não vão se arrepender!!
Sei que o artigo abaixo é um pouco longo, mas recomendo enfaticamente que o leiam, pois é uma bela e consistente reflexão sobre a questão da homofobia, numa dimensão abrangente, sem contudo perder os vínculos socio-políticos, históricos e religiosos. Leiam tudo ou pulem um pedaço, mas leiam, não vão se arrepender!!
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Adital -
A questão fundamental a guiar nossas reflexões neste Seminário(1),
em meu ver, pode ser assim formulada: Que País queremos construir?
Ou: Que Brasil queremos afirmar?
Inicio fazendo referência a um duro, tremendo e comovente testemunho
que ouvi na semana passada de Ben Abraham, sobrevivente do Auschwitz. Impressionou-me a resposta que deu à pergunta de uma estudante da
Universidade onde trabalho, sobre as razões que o levaram a escolher
o Brasil para fixar residência após o fim da Guerra e do Holocausto.
Disse Ben Abraham que, quando criança, na Polônia, mesmo antes da
invasão alemã, os judeus, considerados escória, eram tremendamente discriminados. Exemplificou que, no caminho para a escola, atiravam-lhe
pedras e objetos imundos. Ainda menino, algumas vezes, ouviu o seu
pai conversando com os amigos sobre um país da América do Sul,
chamado Brasil. Referiam-se àquela terra como um lugar de tolerância,
uma pátria multirracial, com um povo acolhedor de todos os povos.
Contou que depois de passar pela barbárie indescritível de Auschwitz
e de outros campos de concentração, os sobreviventes não desejavam
mais voltar aos lugares onde tanto sofreram, mesmo antes de caírem sob
o poder dos nazistas. Muitos sonharam e foram para o então recém criado
Estado de Israel. Ben Abraham disse que, depois de tanto horror, ainda
restou nas reminiscências de sua memória as referências de seu pai
em relação a um país chamado Brasil. Ele veio para cá, encontrou
aqui a acolhida sonhada. Naturalizou-se mais tarde brasileiro.
Refiro-me ao testemunho de Ben Abraham como pano de fundo para a
reflexão que está diante de nós. Que Brasil queremos afirmar? Toda
intolerância seja ela por motivo religioso, étnico, racista, sexista, de
orientação sexual tem o mesmo genes. E a intolerância ganha dimensões
de tragédia quando é incrementada pelos aparelhos do Estado. Mas,
por outro lado, também, a leniência ou mesmo a abstinência do Estado
em relação a essa matéria permite o esfacelamento do projeto
democrático.
O Estado democrático de direito brasileiro, que encontra seu desenho
jurídico na Constituição Federal de 1988, não é um dado. Não está pronto
como que por declaração do constituinte. O Estado democrático de direito se faz à medida que a Constituição, em sua dimensão prospectiva, se concretiza historicamente, na dialética dos embates das diversas forças organizadas da sociedade civil.
O presente Seminário se inscreve nesse marco de construção efetiva da democracia no Estado brasileiro, a qual tem como referencial maior a Constituição Federal de 1988.
A reflexão que proponho sobre fundamentalismo religioso e intolerância tem como ponto partida ou como premissas os princípios constitucionais, que asseguram a democracia não apenas como limitação ao poder estatal em face das liberdades individuais. O Estado democrático de direito somente será efetivo se o princípio da democracia tiver sua reverberação também nas relações interprivadas.
A Constituição Federal, em seu art. 3º, elege como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil o princípio da pluralidade e da tolerância. Dessa forma, todas as ações do Estado brasileiro devem ter como objetivo fundamental: "promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação". Se esse é um dos objetivos da República, não é um objetivo meramente do Estado, mas da sociedade e de cada um dos brasileiros. Esse é um dos pilares em que fundamos os nossos sonhos.
Por outro lado, desde a primeira Constituição republicana, o Brasil declarou-se um Estado laico. A laicidade do Estado é conditio sine qua non para uma autêntica democracia. Não se pode admitir que, por via transversa, valham-se do Estado maiorias religiosas ou grupos de pressão, para impor a todos os cidadãos preceitos de viés nitidamente dogmático-religioso. Esses preceitos podem legitimamente até ter incidência no âmbito da "jurisdição" dos fiéis ou adeptos de determinado credo, mas, não podem alcançar generalidade impositiva para os cidadãos de um Estado que se diz democrático.
O princípio da laicidade do Estado, expresso no art. 19 da Constituição Federal, veda aos entes federativos não só estabelecer cultos religiosos ou subvencioná-los, mas, também, veda-lhes manter com as entidades religiosas ou com seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público. O princípio da laicidade do Estado é, também, o que assegura o próprio princípio da liberdade religiosa e da liberdade de opinião.
Ainda que implicitamente, a Constituição estabelece o princípio do livre desenvolvimento da personalidade, ao tornar invioláveis a intimidade e a vida privada, nos termos do inciso X, do art. 5º da Carta Magna. O princípio da inviolabilidade da intimidade não deve ser referido a partir de uma perspectiva individualista proprietária do modelo liberal, enunciado na expressão norteamericana: "My home is my castle", mas, sim, como o direito de autodeterminação, como direito ao livre desenvolvimento da personalidade, como autonomia em relação à dimensão existencial de cada um de nós. O Estado não pode e não deve se imiscuir nessa esfera e tampouco os particulares, sejam organizações religiosas, partidos políticos, sindicatos, ou qualquer outro tipo de associação.
Merece ainda referência o princípio da pluralidade das entidades familiares, consagrado no art. 226 da Constituição Federal. Alinho-me com o professor Paulo Luiz Netto Lobo que sustenta a inexistência de hierarquia entre as modalidades de família enumeradas neste artigo da Constituição, bem como a inexistência de um rol taxativo e redutor das possibilidades de estruturação familiar. Portanto, o princípio da pluralidade das entidades familiares implica a superação do monismo que reconhecia no casamento a única fonte da família merecedora da tutela estatal.
Como já fiz referência, esses princípios não ganham força pela sua simples enunciação no texto constitucional. Adquirem densidade normativa à medida, e tão-somente à medida, que são incorporados pelo discurso operativo daqueles que detém o poder, especialmente o Legislativo, o Judiciário e o Executivo.
No contexto desse Estado democrático de direito em construção é que gostaria de tomar em consideração o tema do fundamentalismo religioso e a intolerância, especialmente, tendo como foco a homofobia.
Parto, neste ponto, também, de algumas premissas. Precisamos entender o fundamentalismo ou, talvez, com maior precisão, a alma do fundamentalismo, isto é, como alguém se torna fundamentalista.
Entendo que o fundamentalismo tem origem no medo. Medo em face da imprevisibilidade, medo em face da falta de estabilidade, medo em face do estranhamento do diferente. Em germe, o fundamentalismo, existe em todo ser humano. Ele pode ou não se desenvolver, ganhando expressão religiosa, em alguns casos, ou vestindo-se do manto político-ideológico, em outros. O fundamentalismo, de qualquer sorte, está sempre vinculado à intolerância ao diverso, ao diferente.
Para melhor explicitar o que estou a afirmar, tomo por empréstimo algumas metáforas preciosas de Caetano Veloso, na consagrada poesia de seu Sampa, imortalizado no cancioneiro da música popular brasileira. "...quando eu cheguei por aqui eu nada entendi / Da dura poesia concreta de tuas esquinas / Da deselegância discreta de tuas meninas". O fundamentalista retrai-se diante da complexidade e do choque com o diferente, enclausura-se e nega aquela dura e concreta realidade. Falta quem lhe traduza o diferente: "Ainda não havia para mim Rita Lee / A tua mais completa tradução". São os novos baianos diante da concretude dura da cidade de São Paulo. A revelação do estranhamento em face do diferente vem no verso seguinte: "Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto / Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto / É que Narciso acha feio o que não é espelho / E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho". O fundamentalista é aquele que, movido pelo pavor do novo, retrai-se e nega o diferente.
O fundamentalista não admite a possibilidade do diverso, do diferente. Se o outro existe a sua própria existência é negada: "Quando eu te encarei... não vi o meu rosto". Admitir o outro constitui uma luta existencial para o fundamentalista. O reconhecimento do diferente lhe "des-afirma". A saída para ele é, então, pronunciar a palavra discriminatória: "Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto". E Caetano explica como nenhum outro poderia: "É que Narciso acha feio o que não é espelho / E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho". O novo ou o diferente é negado porque não é idêntico, não é espelho.
Sem jamais pretender explicar o fundamentalismo, creio eu, que Caetano Veloso desvela sua alma, sua essência(3). Se o fundamentalismo -inclusive o religioso- encontra a condição de sua existência no medo do diferente, ele ganha consistência pela afirmação da detenção da Verdade. O dogmatismo é estabelecido a partir de uma epistemologia que não abre campo para dúvida e, portanto, para uma compreensão diversa, para as possibilidades argumentativas, para o contraditório.
Novamente, são as metáforas que nos permitem compreender o dogmatismo característico de todo fundamentalismo. Em seu livro Protestantismo e Repressão, Rubem Alves, relembra uma citação de Soren Kierkegaard: "Se Deus tivesse na sua mão direita toda a Verdade, e na sua mão esquerda somente apenas o perpétuo impulso na direção da verdade, muito embora acrescido do fato de que estou destinado a errar sempre e eternamente, e me dissesse: ‘Escolhe’. Eu escolheria a sua mão esquerda e diria: ‘Dá, ó Pai! A Verdade pura, na verdade, é para Ti somente’".(3). Se alguém tem a pretensão de ter, em sua mão, a Verdade, ele se faz igual a Deus. Ora, se alguém tem a Verdade não há por que tolerar aquele que pensa e age de forma diversa. Por essa razão, o dogmatismo é irmão siamês da intolerância, da exclusão e da negação do diferente.
A proposta de Kierkegaard é a da tolerância: se sou dotado apenas do perpétuo impulso em direção à verdade, mas, sabedor de que estou fadado a errar sempre e eternamente, essa condição me coloca numa postura de diálogo e de abertura para o outro, para aquele que tem compreensão diversa da minha.
Nessa ordem de idéias, vale a pena lembrar os ensinamentos de um bispo brasileiro que deixou para todos nós um grande exemplo: Dom Hélder Câmara. Dizia o Bispo de Recife:
Ter ao próprio lado quem só sabe dizer amém, quem concorda sempre, de antemão e incondicionalmente, não é ter um companheiro, mas, sim, uma sombra de si mesmo. Desde que a discordância não seja sistemática e proposital, que seja fruto de visão diferente, a partir de ângulos novos, importa, de fato em enriquecimento. (...)
"Se discordas de mim, tu me enriqueces
Se és sincero
e buscas a verdade
e tentas encontrá-la como podes,
ganharei
tendo a honestidade
e a modéstia
de completar com o teu
meu pensamento,
de corrigir enganos,
de aprofundar a visão..."(4)
Infelizmente, a visão ecumênica, em seu sentido mais amplo -isto é, a possibilidade de coexistência com o diferente fundada no amor- não é a prevalecente na maioria das igrejas, o que inclui lideranças católicas, protestantes históricos e evangélicos de todos os naipes, do alto e do baixo clero.
Nas considerações sobre o fundamentalismo e a homossexualidade especificamente, vou restringir minha análise ao "mundo protestante", que é o que melhor conheço. A homofobia do fundamentalista protestante tem relação com um dogma: a doutrina da inerrância das Escrituras Sagradas. Na busca de estabilidade e segurança para a interpretação do mundo e da própria vida, o fundamentalista apega-se à literalidade do texto bíblico e sustenta a impossibilidade de haver erros de qualquer natureza no texto sagrado.
Essa doutrina, todavia não é exclusiva do protestantismo. É conhecida a história de Galileu Galilei que foi instado a retratar-se de sua teoria heliocêntrica, isto é, de que os planetas giravam em torno do Sol. Isso porque, a partir do texto bíblico, a Igreja sustentava que o Sol girava em torno da terra. Galileu retratou-se para não experimentar as chamas da fogueira da inquisição. Mas, certamente resmungou para si mesmo que uma declaração não mudaria um dado, uma constatação. Martin Buber bem interpretou esse episódio da vida de Galileu. Se o sol gira em torno da terra ou o inverso é questão de profunda indiferença quando se trata de continuar a viver ou morrer. E completa o filósofo alemão: "Boas razões para viver são, também, boas razões para morrer". Diferentemente de Galileu, outros tantos enfrentaram a fúria inquisitória, porque as razões que justificam a vida, também, justificavam a opção que os levaria à morte. O dogmatismo presente será -quase que necessariamente- a vergonha futura. Hoje, nenhuma criança do ensino fundamental tem a "crença" de que o Sol gira em torno da terra. O que atualmente constitui obviedade quase levou um gênio estudioso à morte.
A questão da homofobia vem também da leitura literalista da Bíblia. Existem textos bíblicos que condenam com veemência não a homossexualidade -isso seria um anacronismo- mas a prática de atos homossexuais. Texto recorrentemente referido é o do Livro de Levítico, capítulo 20, versículo 13: "Se um homem se deitar com outro homem como quem se deita com uma mulher, ambos praticaram um ato repugnante. Terão que ser executados, pois merecem a morte".
Tomando como fundamento esse texto, a homossexualidade foi criminalizada em países de matriz protestante como os Estados Unidos. O processo de descriminalização é bem recente. Illinois foi o primeiro Estado americano a descriminalizar a homossexualidade, e isso ocorreu só em 1962.
Obviamente, o senso comum de uma religiosidade fundamentalista não cede facilmente à superação de um dogma. Se esse ruir, desmorona todo o edifício da fé. Porque se há um erro nas Escrituras Sagradas, abre-se brecha para outros tantos, de tal sorte que a fé perde o alicerce do texto enunciador da Verdade. Tanto é assim que, nos Estados Unidos, assiste-se, na atualidade, a uma verdadeira cruzada dos defensores da teoria criacionista, que invadem as escolas e universidades.
Admitir que o Estado reconheça e dê tutela às relações homoafetivas, e que homens e mulheres, homossexuais ou bissexuais constituam família chancelada por lei, revela-se uma ofensa à própria fé e põe em risco a vida e as razões de ser da existência do fundamentalista. Não se trata para ele de uma afirmação científica, análoga à discussão sobre o heliocentrismo e o geocentrismo. Para o fundamentalista admitir status de cidadania às conformações familiares homoafetivas torna-se uma agressão de natureza existencial. Daí a intolerância manifesta-se no nível do discurso, mas, em determinadas situações, pode se materializar em violência física, vide o exemplo da Ku Klux Klan e dos Skinheads.
À guisa de encerrar esta reflexão, não gostaria de apresentar uma plataforma de conclusões ou de proposições. Parece-me mais interessante suscitar algumas questões para o debate.
Existe possibilidade de um processo argumentativo para o estabelecimento de provisórios consensos, quando os interlocutores partem de bases epistemológicas completamente diversas? Ou, dito de outra forma, a afirmação dogmático-religiosa da "Verdade" é permeável a uma discussão questionadora que toma a dúvida metodológica como premissa? Ou, ainda, a mesma pergunta: É possível diálogo proveitoso e produtivo com o fundamentalismo? Em caso afirmativo, quais seriam as estratégias para esse exercício?
O que representa a defesa do Estado laico como base de arranque para a luta contra as várias formas de homofobia? Como o princípio do Estado laico pode se prestar de anteparo contra a imposição de preceitos particulares de um credo à totalidade de uma sociedade plural, multiforme, e não-confessional?
Que riscos a luta contra o fundamentalismo corre de ela mesma assumir posturas fundamentalistas? Pode a luta contra a homofobia fundamentalista acabar por negar a possibilidade do pensamento diverso? Exemplifico. Há associações, no Brasil, que só admitem homens no seu quadro de associados. Há associações que somente aceitam mulheres. A Igreja Católica e muitas igrejas evangélicas não aceitam que as mulheres tomem parte de seu quadro de ministros. Assim, questiono se pode uma associação ser tolhida em sua autonomia de não aceitar, em seu quadro de religiosos, pessoas homossexuais. Há diferença entre a discriminação sexista e a discriminação em razão da orientação sexual? Pode o Estado ingressar no âmbito do direito associativo, que constitui também direito fundamental, para impor restrições a esses tipos de discriminação no espaço associativo? Ou, ainda, é possível num Estado democrático de direito proibir a pregação, nas igrejas ou organizações religiosos, contra a homossexualidade, pregação essa feita por razões de convicção de fé? Tal proibição ou criminalização de conduta é o melhor caminho, neste momento histórico?
E no espaço público, como, por exemplo, nas Forças Armadas, é possível admitir qualquer tipo de discriminação fundada em homofobia? Ou deve prevalecer a hipocrisia norte-americana do "Don't Ask, Don't Tell (DADT)"? Homossexualidade velada passa, declarada jamais. O espaço público deve ser tratado de forma diferenciada em relação ao espaço privado associativo privado?
Ao fim e ao cabo, restará a pergunta fundamental: Que País visamos construir ou que Brasil pretendemos afirmar? A discriminação contra os homossexuais foi um dos emblemas do regime nazista. Vê-se, pois, que a luta por um País no qual haja lugar para a coexistência digna de todos e todas não é travada apenas em face do fundamentalismo religioso. Mas, é uma luta contra todo tipo dogmatismo e intolerância.
O que nos move é a esperança de construir um Brasil no qual haja lugar para todos e que o nosso multiculturalismo não seja mera vitrine ou mote de marketeiros. A democracia somente mostrará sua vitalidade quando nenhum ser humano for discriminado em razão de sua origem social ou étnica, em razão de sua orientação sexual, da cor de sua pele, de sua idade ou de qualquer outra característica que o distinga dos demais. Esse é um dos objetivos da República que fundamos com a Constituição de 1988. E, se há uma oração..., é para que Deus nos livre do cinismo e da hipocrisia da sociedade que Chico Buarque tão bem retratou em ‘Geni e o Zepelin’.
Notas:
(1) Notas da palestra proferida na Câmara dos Deputados, no VII Seminário de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais no Congresso Nacional, em 18 de maio de 2010.
(2) Não cuidarei do derradeiro verso da famosa canção, que é igualmente belo, porque considerações sobre ele escapariam as limitações da análise a que me proponho.
(3) ALVES, Rubem. Protestantismo e repressão. São Paulo: Ática, 1979. p. 284.
(4) CAMARA, Helder. O deserto é fértil. 11. ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981. p. 28 e 29.
* Professor de Direito Civil e Coordenador do Curso de Direito da Univ. Positivo (UP). Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Advogado em Curitiba (PR)
quarta-feira, 19 de maio de 2010
BALANÇO DO DIA 15
“Somos nada em relação a tudo, mas somos tudo em relação a nada”
(Pascal)
A REUNIÃO DA SECRETARIA
Em reunião da Secretaria GLBTT, neste último dia 15/05, decidimos manter a proposta de fazer um “ENCONTRO LGBT”, na subsede de Sto Amaro, no mês de setembro do corrente ano. Na ocasião houve uma proposta para que fizéssemos um “Encontrão das Opressões” (Negros + Mulheres + GLBTT). No entanto, achamos melhor um encontro mais direcionado ao público LGBT, para que possamos legitimar a Proposta de Ação da secretaria bem como fazer um levantamento das demandas LGBTs específicas de nossa região.
Evidentemente não somos contra a ação conjunta nem contra o Encontrão das Opressões, pretendemos realizá-lo num segundo momento, mas decidimos fazer um encontro específico nesse momento, até para ver a nossa capacidade de mobilização. Por isso contamos muito com o apoio de todos. Em breve estaremos dando maiores detalhes.
Estavam presente na reunião: Romeu, Izabel, Rute, Cláudio, Jorge e Luciano, além dos convidados de outras secretarias: Jaqueline (Mulheres) e Rui (Organização de Base).
VALEU!! OBRIGADO PELA PRESENÇA DE TODOS!!!!
PARTE DA MANHÃ
Nós participamos e apoiamos a tese vencedora na parte da manhã, junto com a oposição do SINPEEM, garantimos a presença de 23 delegados nos dias 3, 4 e 5, lá em Santos. Sabemos que nossa presença foi fundamental pois a tese vencedora assim o foi com uma diferença de três votos e nós éramos em seis.
PARTE DA TARDE
No congresso da CONLUTAS, a tarde, houve muito mais teses (14 foram defendidas) e estávamos lá, apoiando aquela que nos parecia mais inclusiva, que propunha o nosso pleno direito de participar inclusive da diretoria da nova central. Há muitos que acham que os LGBTTs não devem participar. Mas, felizmente, também venceu a tese que apoiávamos.
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